DEPRESSÃO NÃO É SÓ TRISTEZA

A depressão é uma doença que compromete várias dimensões da vida do sujeito. (veja no Quadro 1 ) . A depressão altera a maneira como a pessoa vê o mundo e sente a realidade, entende as coisas, manifesta emoções, sente a disposição e o prazer com a vida. Ela afeta a forma como o indivíduo se alimenta e dorme, como se sente em relação a si próprio e como pensa sobre as coisas. A depressão, de um modo geral, resulta numa inibição global da pessoa, afeta a parte psíquica, as funções como a memória, o raciocínio, a criatividade, a atenção, a vontade, a parte física, afeta as relações interpessoais. A depressão pode estar mascarada por sintomas somáticos ou por outros problemas psicológicos em que a tristeza não é o sinal mais evidente.

A depressão é uma doença afetiva ou do humor, não é simplesmente tristeza, não é sinal de fraqueza , de falta de pensamentos positivos ou uma condição que possa ser superada apenas pela força de vontade ou com esforço. A pessoa deprimida não tem ânimo para os prazeres da vida e os conselhos , do tipo “vá se distrair”, “vá passear”, ”pense positivamente”, de familiares e amigos geralmente têm pouca serventia para sua melhora. Sem tratamento adequado, os sintomas podem durar semanas, meses, anos ou levar ao suicídio.

O sujeito depressivo tem uma constante sensação de culpa e vive se auto-repreendendo, apresenta uma certa rigidez do pensamento, a irritabilidade é também característica, assim como o desejo de estar só. Tem constantemente pensamentos ansiosos com conteúdos negativos.

A depressão pode ocorrer isolada ou entre episódios de excitação, chamados de mania. No estágio maníaco a pessoa tem o humor elevado, contagia com sua alegria e empreendedorismo, pode apresentar muita irritabilidade quando contrariada, podem também, aparecer idéias delirantes. O transtorno de humor que alterna depressão e mania se chama transtorno de humor bipolar. A mania também é perigosa, pois expõem o sujeito a riscos devido às crenças de invulnerabilidade que ele possui, pode subir numa torre alta, engajar-se em muitas atividades concomitantemente, envolver-se excessivamente com atividade prazerosas, como compras, jogos de azar, sexo, investimentos suspeitos e etc.. O transtorno bipolar também é regido por alterações da bioquímica cerebral.

Os tratamentos medicamentosos para a depressão procuram realizar uma correção bioquímica entre os neurotransmissores e os neuroreceptores (agentes responsáveis pela transmissão dos estímulos nervosos, no cérebro), sendo que, os medicamentos promovem uma normalidade na bioquímica cerebral compatível com um funcionamento afetivo mais harmônico. Os antidepressivos são substâncias que aprimoraram o funcionamento psíquico melhorando o humor e, conseqüentemente, melhorando o desempenho psíquico de modo geral. Apesar de vários fatores contribuírem para as causas da depressão emocional, entre eles destaca-se cada vez mais a importância da bioquímica cerebral. Os antidepressivos não são calmantes, são substâncias típicas para a correção do humor. Os sintomas ansiosos e físicos tendem a desaparecer com o tratamento da depressão na maioria dos casos, sem necessidade de ansiolíticos (calmantes) e/ou medicamentos sintomáticos. Para o alívio mais rápido de sintomas físicos e ansiosos que normalmente são os principais motivos de busca por tratamento, os ansiolíticos podem ser utilizados.

Interposição de Aspectos e Sintomas da Depressão em Diversas Dimensões

Orgânica
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Distúrbios do sono (insônia ou excesso de sono)
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Distúrbios do apetite (muita fome (hiperfagia) ou falta de apetite (hipofagia))
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Fadiga acentuada
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Marcadas alterações no peso corporal
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Distúrbios da libido: hipersexualidade (excesso interesse) ou hiposexualidade (baixo interesse)
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Ansiedade
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Sintomas físicos vagos sem etiologia que os justifique
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Aumento e persistência dos sintomas com uma etiologia (origem) orgânica.
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Hipocondria
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Queda na imunidade
Cognitiva
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Avaliação negativa de si
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Avaliação negativa dos outros
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Interpretação negativa dos eventos
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Idéias suicidas

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Indecisão

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Confusão

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Baixo nível de concentração

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Estilo de pensamento generalizado
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Vitimização
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Falta de iniciativa
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Sentimentos de impotência
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Distorções cognitivas (padrões distorcidos de pensamento)
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Pensamento “ruminante”
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Rigidez
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Sentimentos de culpa
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Desesperança
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Sentimentos de perseguição
Comportamental
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Distúrbio nos níveis de atividade (hiper ou hipoativo)
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Atitudes agressivas ou destrutivas
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Choro constante
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Tentativas de suicídio e suicídio
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Fala lenta ou apressada
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Abuso de drogas
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Impulsividade generalizada
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Comportamentos que não condizem com os valores pessoais do sujeito
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Comportamentos compulsivos destrutivos
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Agitação ou retardo psicomotor
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Postergação
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Abandono de atividades com freqüência
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Perfeccionismo
Afetiva
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Tristeza
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Perda das fontes de gratificação
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Oscilação no humor
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Auto-estima rebaixada
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Sentimentos de inadequação e inutilidade
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Perda de vínculos emocionais
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Apatia
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Alta ou baixa reatividade emocional
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Perda de motivação
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Aumento da irritabilidade, raiva e ódio
Social
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Estilo de relacionamento onde o indivíduo aparece sempre como vítima
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Acentuada dependência de outras pessoas
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Alta reatividade aos outros
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Ganhos sociais secundários
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Crises familiares/conjugais
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Evitação social
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Dificuldades nos relacionamentos interpessoais no trabalho/escola
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Submissão

Quadro 1. obs.: Os aspectos e sintomas da depressão variam entre as pessoas, estão separados para propiciar a elucidação de cada caso, na clínica.

 

 

Depressão e Terapia Cognitivo-Comportamental

 

O modelo teórico cognitivo-comportamental propõe que nossas emoções e comportamentos são influenciados pela maneira de como percebemos e interpretamos os eventos; propõe ainda, que o pensamento disfuncional ou distorcido seja comumente apresentado nos distúrbios psicológicos, afirma Aaron Beck, pai da terapia cognitivo-comportamental .

Segundo Beck, são os pensamentos, as idéias e as imagens distorcidos a base dos sintomas da depressão. O enfoque cognitivo não se preocupa tanto com as causas e motivações de uma determinada patologia, mas enfatiza as mal-adaptações na estrutura cognitiva do indivíduo e os mecanismos defeituosos de processamento de informação em uma determinada doença, a exemplo da depressão, ou seja, o objetivo da terapia não é tanto o que existia, mas o que existe e o que mantém ou reforça o comportamento disfuncional. Então, a terapia cognitiva busca tratar a depressão a partir do entendimento de que os sintomas são o resultado dessas distorções cognitivas, isto é, de um modelo cognitivo disfuncional, argumenta Arthur Freeman.

Aaron Beck acredita que a psicopatologia é resultante de significados maladaptativos que o sujeito constrói em relação a si, ao contexto ambiental (experiência) e ao futuro (objetivos), que juntos formam o que ele chama de tríade cognitiva . Na depressão, todos os três componentes são interpretados negativamente, o conteúdo dos pensamentos é negativo, que gera sentimento e comportamento de autopunição e de exacerbação dos problemas externos e desamparo.

O sujeito deprimido tem uma visão negativa de si, do mundo – do contexto e das experiências - e do futuro. Tem a tendência a se considerar inadequado, abandonado, inútil, sem valor, derrotado e auto-acusar-se . A visão de mundo que o sujeito deprimido tem está marcada pelas crenças de que fora sobrecarregado com enormes exigências e que existem barreiras intransponíveis para atingir seus objetivos, é como se o mundo estivesse carente de prazer ou gratificação. A visão de futuro também é negativa, é pessimista, evidenciando as crenças de que os problemas podem ainda piorar.

Os significados (interpretações da pessoa sobre um determinado contexto e da relação daquele contexto consigo) são construídos pelo indivíduo, já que não são componentes preexistentes da realidade, mas são corretos ou incorretos em relação a um determinado contexto ou objetivo e quando ocorre a distorção cognitiva ou preconcepção , os significados são disfuncionais ou maladaptativos, já que as distorções cognitivas incluem erros no conteúdo cognitivo (significado), no processamento cognitivo (elaboração de significado), ou ambos.

Existem três níveis de cognição: nível pré-consciente (pensamento automático, não intencional); nível consciente e nível metacognitivo (respostas adaptativas, pensamento mais elaborado), segundo Aaron Beck. Os pensamentos automáticos são extremamente habituais, pois são comuns a nós, já que a qualquer momento estamos interpretando de alguma forma os eventos vividos. Normalmente, eles não são reconhecidos conscientemente, e fazem a mediação entre uma determinada situação experimentada e conseqüentes reações, sejam comportamentais, emocionais ou fisiológicas, portanto, os estados de humor são um reflexo desses pensamentos, em determinado evento, não como causa, mas constituinte dos mesmos.

Uma situação do cotidiano tanto pode gerar pensamentos automáticos negativos como positivos, levando o sujeito a ter sentimentos pertinentes aos pensamentos originados (veja Quadro 2) .

Situação

Pensamentos

Sentimentos

Estou andando
pela calçada e encontro
um colega que não
me vê.

Puxa vida, ele nem me viu. Ninguém me vê, mesmo. Eu sou mesmo
insignificante. Acho que ele não gosta de mim. Ninguém gosta de mim.

Tristeza,
Menos-valia

Ele está olhando a vitrine da loja de informática e não está me vendo.

Indiferença

Olha o fulano! Ele nem me viu. Vou cumprimentá-lo.

Alegria

O que será que fiz?

Culpa

Será que ele está chateado comigo?

Preocupação

Como ele é antipático. Fez que não me viu.

Desprezo, raiva

Quadro 2.

O nível mais profundo das cognições é a crença central, uma afirmação absolutista que o sujeito tem a respeito de si, dos outros e do mundo. Certos tipos de pensamentos automáticos fornecem pistas em relação às crenças centrais e ambos podem estar distorcidos, podem não haver evidências que apóiem tanto os pensamentos automáticos quanto as crenças centrais. Os estímulos que desencadeiam a depressão podem vir do ambiente e/ou serem internos. Eles acionam os esquemas, que são as estruturas cognitivas que organizam a experiência e o comportamento do sujeito. As crenças portanto, representam os conteúdos dos esquemas e determinam conseqüentemente o conteúdo do pensamento, do afeto e do comportamento. Os pensamentos negativos e desadaptativos emergem na consciência, automaticamente e dependendo da gravidade da depressão, tornam-se autônomos e ativos e prevalentes sobre as demais cognições.

É importante saber se a pessoa é deprimida ou esta deprimida. As características do tratamento serão as mesmas, nesses dois casos. Episódios mais severos de depressão devem ser tratados com medicação e psicoterapia. Esses dois procedimentos são complementares e eficientes. A medicação ajuda a tirar o paciente daquele estado de apatia e melhora a auto-estima na medida em que regulariza os níveis de serotonina (uma das substâncias da bioquímica cerebral, a qual é responsável pelo nosso humor). Com a medicação, as intervenções terapêuticas tornam-se mais eficientes porque o sujeito tem maiores condições de comunicar e de elaborar adequadamente angústias, conflitos e problema, pois a psicoterapia propicia que a pessoa possa conhecer e lidar com as situações que a levam à depressão. Assim, no futuro, quando o sujeito parar de tomar remédio e voltar a encontrar situações que possam deprimi-lo, saberá como lidar com os problemas, agindo de maneira mais assertiva e evitando as recaídas.

A terapia cognitivo-comportamental é uma terapia ativa, a qual visa ensinar o paciente a reconhecer pensamentos e crenças, principalmente as idéias distorcidas geradoras de seus problemas. Ela propõe o reconhecimento das vinculações entre pensamento, afeto e comportamento, visa também, examinar as evidências a serviço de pensamentos que são automaticamente distorcidos, e ensina o sujeito a substituir esses pensamentos por interpretações mais lógicas e orientadas para a realidade, determinando afeto e comportamento mais positivos. Através de registros de pensamentos, usados na terapia cognitivo-comportamental , as crenças não verdadeiras e os pensamentos distorcidos podem ser modificados pelo acesso a pensamentos alternativos e compensatórios, desenvolvendo-se novas crenças, facilitando a mudança dos estados de humor e do repertório comportamental, p ortanto, ela visa alterar as interpretações errôneas que prejudicam a vida do indivíduo.

A TCC não visa analisar todas os eventos ou situações em que o sujeito se sente triste, por exemplo, pois as respostas emocionais negativas são características do ser humano, assim como as positivas, logo, são fundamentais e inerentes ao homem. A terapia cognitivo-comportamental propõe diminuir a angústia que está relacionada com a distorção cognitiva (erros de processamento de idéias, dos pensamentos) de uma situação ou relativa ao transtorno psicológico.


Psicóloga Márcia Copetti
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